sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Encosta-te a mim

Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim
Jorge Palma
música: Jorge Palma
Crónica de um amor anunciado
Todo o apaixonado é um publicitário em potencial. Não anuncia cigarros, hidratantes ou máquinas de lavar, mas anuncia o seu amor, como se vivê-lo em segredo diminuísse a sua intensidade.
O hábito começa na escola. O caderno abarrotado de regras gramaticais, fórmulas matemáticas e lições de geografia, e lá, na última página, centenas de corações desenhados com caneta vermelha. Parece aula de ciências, mas é introdução à publicidade. Em breve estará a desenhar corações em árvores, a escrever atrás da porta da casa de banho e grafitando a parede do corredor: Suzana ama João.
A partir de uma certa idade, a veia publicitária torna-se mais discreta. Já não anunciamos a nossa paixão em muros e bancos de jardim. Dispensa-se a mídia de massa e parte-se para o telemarketing. Contamos por telefone mesmo, para um público selecionado, as últimas notícias da nossa vida afectiva. Mas alguns não resistem em seguir propagando com alarde o seu amor. Colocam anúncios de verdade no jornal, geralmente nos classificados: Kika, te amo. Beto, volta pra mim. Tony, não me deixe por essa loira de farmácia. Joana, foi bom pra ti também?
O grau máximo de profissionalismo é atingido quando o apaixonado manda colocar a sua mensagem num pano a cair das pontes por cima da auto estrada. O recado é para ela (ele), mas toda a gente que circula por ali fica a saber . Em grau menor de assiduidade, há casos em que apaixonados mandam despejar de um helicóptero pétalas de rosas na morada do namorado, ou gastam uma fortuna para que a fumaça de um avião desenhe as iniciais do casal no céu. A criatividade dos amantes é infinita.
O amor é uma coisa íntima, mas todos nós temos a necessidade de torná-lo público. É a nossa vitória contra a solidão. Assim como os adeptos dos clubes de futebol comemoram com buzinanços as suas viórias, foguetório e cantorias, queremos também alardear a nossa conquista pessoal, dividir a alegria de ter alguém que faz o nosso coração bater mais forte. É por isso que, mesmo não sendo adepta do estardalhaço, sinto pena por aqueles que amam escondidos, amam em silêncio, amam clandestinamente. Mesmo que funcione como fetiche, priva o prazer de ter um amor compartilhado.
Hoje organizei os meus sonhos em sequência e prioridades…
Descartei amores duvidosos, amores feitos de promessas, camuflados sob o manto do amanhã que nunca acontece por medo, covardia, comodismo, insegurança ou… sei lá.
Não quero mais enigmas que devoram as minhas expectativas, nem a face enrugada da tristeza reflectida no meu espelho.
Quero recriar a canção da minha Vida em notas de Alegria e, resgatar o Projecto original da Menina que era feliz e sabia.
Hoje eu disse adeus às promessas construídas em séries e abandonei as utopias feitas em cerâmica que trincaram. Não mais emprestarei a minha alma a moldes disformes, nem usarei as lágrimas para humedecer o barro sem arte.
Não quero o martírio de um paraíso do outro lado do muro nem o mapa para que siga pistas de potencial vitória.
Quero que a Felicidade me beije com sofreguidão e o Amor presente no meu Coração.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Se a tristeza vier por qualquer motivo, faça o seguinte:
Evite as sombras que ficaram para trás, olhe o caminho a sua frente e siga sempre.
Assopre o pensamento triste,
Deixe escorrer a última lágrima,
Vá até o final do poço, mas volte renovado.
Então, respire fundo
Tirando da natureza a energia para elevar sua alma.
Abra então a janela,
Aquela que dá para o vôo dos pardais, procure a luz que pisca adiante.
Ao encontrá-la,coloque-a dentro do peito,
De tal jeito que possa ser notada do lado de fora.
Espalhe a cor rosa em torno de si...
Dê amor...
A todas as criaturas vivas.
A felicidade é o seu objectivo...
E a paz que você procura
Será encontrada dentro de você
Onde Deus colocou um pedacinho de si.
A FITA MÉTRICA DO AMOR

Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ele é enorme para nós quando fala do que leu e viveu, quando nos trata com carinho e respeito, quando nos olha nos olhos e sorri destravado. É pequeno quando só pensa em nele mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade. Uma pessoa é gigante para nós quando se interessa pela nossa vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando se desvia do assunto. Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dele, mas de acordo com o que espera de si mesmo. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês. Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ele que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.
Salazar, visto por Salazar...
Muita gente vai em passeio à campa de Salazar. Quem lá vai, leva sempre flores, pois parece que se não fossem essas nunca tinha nenhumas, mas não levam só flores...também pedem em "oração" que Ele seja o Guia Espiritual dos filhos. Afinal há muitos a quererem ser como Salazar, ou a quererem ser o que Ele representava?? Vamos ver como ele se via.Devo à Providência a graça de ser pobre; sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, sustentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia, não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente.
Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não pelas ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre.
Jamais empregarei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam, esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha a culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano.
Penso ter ganho, graças a um trabalho sério, os meus graus académicos e o direito a desempenhar as minhas funções universitárias. Obrigado a perder o contacto com as ciências que cultivava, mas não com os métodos de trabalho, posso dizer que as reencontrei sob o ângulo da sua aplicação prática; e folheando menos os livros, esforcei-me em anos de estudo, de meditação, de acção intensa, por compreender melhor os homens e a vida. Pude esclarecer-me.
