quarta-feira, 11 de março de 2009

O ser humano é um animal de hábitos


Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é actividade de manter.
Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma “iniciativa”, que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
É por isso que eu hoje respeito mais continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.
É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão.
O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas – sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades – é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor – são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar.
É tão fácil ser rebelde. Fica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro.



As Minhas Aventuras na República Portuguesa - Miguel Esteves Cardoso

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