São feios e mais caros. Será que vale mesmo a pena investir neles? Uma pêra que sabe mesmo a pêra, um tomate tão doce que passamos a acreditar que é mesmo um fruto, uma abóbora deliciosamente saborosa e doce e frescos que cheiram a fruta e legumes e nos transportam até à nossa infância.
Assim são os produtos biológicos, famosos por serem isentos de pesticidas e conhecidos também, nos países anglo-saxónicos, como orgânicos ou ecológicos, em Espanha e na Dinamarca.
Por todas estas razões dizemos-lhe: compre as cenouras mais feias. Serão as mais saborosa! E, como vai descobrir a seguir, as mais nutritivas também.
Os produtos da agricultura biológica «têm geralmente excelentes características organolépticas e nutritivas», como frisa o site do Ministério da Agricultura, apresentando, como acrescenta a nutricionista Patrícia Segadães, «benefícios nutricionais comparativamente aos produtos de agricultura convencional.
Têm geralmente maior teor de alguns minerais e vitaminas, como o fósforo, o magnésio, o cálcio e a vitamina C. Muitos estudos indicam também que apresentam maiores teores de matéria seca, grau brix (teor em açúcares) e açúcares redutores.
Estas características reflectem-se ao nível do sabor destes produtos que, por terem uma maior concentração de matéria seca e nutrientes, têm uma menor concentração de água e, consequentemente, um sabor mais rico e intenso.
Aliados das crianças
De acordo com esta nutricionista, «não existem ainda estudos epidemiológicos concretos que nos levem a crer que o consumo a longo prazo dos produtos biológicos se manifeste em benefícios directos na saúde dos consumidores adultos».
No entanto, «por «serem isentos de pesticidas e outros químicos, apresentam mais benefícios para as crianças que, por terem defesas mais frágeis, podem mais facilmente estar sujeitas a intoxicações», sublinha.
«Também pelo facto de estarem em pleno crescimento, a oferta de alimentos com maiores teores em vitaminas e em minerais pode apresentar-se como uma mais-valia», acrescenta ainda.
Em relação aos bebés, «a oferta destes produtos é uma vantagem, na medida em que este tipo de agricultura se baseia na não utilização de produtos químicos ou sintéticos como os pesticidas. Têm, por isso, valores muito baixos destes resíduos», sustenta.
«As intoxicações causadas por este tipo de substâncias afectam, sobretudo, crianças de tenra idade e idosos», refere ainda. Por isso, acrescenta, «sempre que possível os pais deverão optar por este tipo de produto».
Preços ecológicos
Não é um mito. Os alimentos produzidos na agricultura convencional, em massa e com recurso a pesticidas em larga escala, costumam ser mais baratos do que os oriundos da agricultura biológica.
No entanto, o primeiro tipo de cultivo faz muito pouco pela preservação do meio ambiente: contamina lençóis de água e solos e prejudica a promoção da biodiversidade, uma vez que privilegia o cultivo das espécies mais produtivas em detrimento da diversidade.
Como explica Patrícia Segadães, «por ser um tipo de agricultura pouco difundido comparativamente à agricultura convencional, acarreta custos mais elevados, tornando os produtos mais caros, o que muitas vezes não está ao alcance de todas as pessoas».
No entanto, a nutricionista não hesita em recomendar os alimentos orgânicos, «na medida em que são mais ricos a nível nutricional». Apesar do preço, há produtos orgânicos em que deve mesmo apostar, especialmente se tiver bebés ou crianças.
Por exemplo, as primeiras refeições, a partir dos quatro ou seis meses, são geralmente sopas, com batata, abóbora ou cenoura, ingredientes que fazem parte da lista de compras que deve fazer na zona de produtos biológicos. Banana e pêra (as primeiras frutas), idealmente, também devem ser desta categoria.
Escudo anti-pesticida
Oferecer alimentos biológicos aos seus filhos é pois uma boa forma de os proteger dos pesticidas presentes na alimentação e de os ensinar a serem consumidores mais responsáveis e ecológicos.
Um estudo das universidades de Washington e de Emory e do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, financiado pelo governo norte-americano, concluiu que esta opção alimentar concede às crianças uma forte protecção face aos pesticidas que são usados, em larga escala, numa grande quantidade de colheitas.
«Em conclusão», escrevem os investigadores, «conseguimos demonstrar que uma dieta orgânica tem um efeito intenso e imediato em relação à exposição a pesticidas organofosforados que são comummente utilizados na agricultura».
De facto, os produtos orgânicos «apresentam valores muito baixos de resíduos de pesticidas, o que é, sem dúvida, um benefício para a saúde», salienta Patrícia Segadães.
Aliás, segundo um estudo publicado em 2002, disponível em www.omri.org, 13 por cento dos produtos orgânicos continha resíduos, contra 71 por cento dos oriundos da agricultura convencional.
Saber comprar
Desde maçãs do Chile a tomates de Espanha, basta percorrer os corredores dos produtos frescos nos supermercados para fazer uma volta ao mundo. Mas, na ida às compras, aposte também nos produtos com a menor «pegada» ecológica, ou seja, prefira os que são produzidos localmente ou o mais perto possível.
Em Portugal, evite os morangos de Dezembro ou as laranjas em Junho, frutos fora de época. Oferecem menos garantias a nível nutricional e tiveram de passar por processos de conservação, o que lhes retira qualidade.
Evite também comprar em grandes quantidades, adquirindo apenas à medida das suas necessidades.
Se tiver produtos em excesso e não for dada a fazer compotas, congele (frutos silvestres, pêssegos e cerejas), seque (ervas aromáticas) ou esmague em puré (morangos, framboesas ou nectarinas), para usar mais tarde.
Os perigos dos pesticidas
Concebidos para liquidar infestações, os pesticidas podem afectar o nosso organismo, sendo que os seus efeitos dependem do tipo de pesticida e do facto da exposição ser prolongada ou continuada.
De acordo com a Agência de Protecção Ambiental (EPA) norte-americana, por exemplo, os organofosforados e carbamatos afectam o sistema nervoso e, no caso das crianças, os pesticidas podem bloquear a absorção de certos nutrientes essenciais para o crescimento.
Revista Saber Viver
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