sexta-feira, 20 de março de 2009

"Pessoas que magoam sem bater"


É fácil deixar uma pessoa emocionalmente em frangalhos. É só fixar o peito e atirar com palavras. Um dos maiores dramas femininos é a violência dentro de casa. Milhares de mulheres apanham do marido e do namorado. Não importa se são pobres ou ricas, analfabetas ou cultas: apanham uma, duas, três vezes e, em vez de fazerem a malinha e darem um novo rumo às suas vidas, mantêm-se onde estão, roxas e orgulhosas.A maioria suporta a situação porque não têm como se sustentar, não têm para onde levar os filhos, elas estão neste mundo sem pai nem mãe. Mas há outro motivo curioso: muitas mulheres encaram a pancada como um contacto íntimo. Na falta de um beijo, aceita-se um murro. Dói, mas ninguém pode dizer que não existe uma relação a dois. É uma maneira masoquista de se fazer notar, de não se sentir ignorada pelo companheiro. Apanho, logo existo. Que é medieval, nem se discute. Mas a humanidade convive há séculos com estas armadilhas, com estas cenas em que cada um interpreta como lhe convém. Podemos nos apiedar de quem sofre maus tratos em nome desse amor fora dos padrões, mas a verdade é que apanhamos todas, todos. Diga aí quem nunca magoou, quem nunca foi magoado, mesmo sem trazer marcas visíveis. Algumas pessoas são experts em não deixar cicatrizar velhas feridas, em bater no ponto mais frágil. Insinuações doem, acusações injustas doem, desapego dói, indiferença, então... É justamente dentro das relações mais íntimas que se obtêm as melhores armas. A vulnerabilidade é terreno fértil para sovas psicológicas. Sabemos como reage o nosso cônjuge, o que costuma ferir o nosso irmão, onde os nossos amigos fraquejam. Basta uma frase, uma ironia, e é abatido. Deixar uma pessoa emocionalmente em frangalhos não é passível de condenação. Não é crime, não deixa marcas de sangue no tapete. Fixa-se o peito, atira-se com palavras, e os estilhaços caem para dentro. A violência física não tem essa premeditação. Ela caracteriza-se pela falta absoluta de controle. No momento em que se agride alguém com socos e pontapés, atravessa-se a fronteira do racional: vigora a degradação, a selvageria, o fim da civilidade. Por isso, preferimos a agressão verbal, que, apesar de magoar o mesmo, ao menos mantém a ordem. O ideal, no entanto, seria escaparmos ilesos de qualquer brutalidade e convivermos apenas com abraços, sorrisos e palavras gentis, coisa que acontece apenas entre quem mal se conhece. A ternura full time só é comum entre pessoas cujas vidas não se misturam, não trazem consequências uma para a outra. Já a intimidade permite que a mágoa cresça, transformando o rancor em munição. Mike Tyson ao menos ganhava bem para bater e levar. Fora do ringue, todo mundo perde.

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