quinta-feira, 12 de março de 2009

A Vida Inteira


Eva começa a seleccionar os telefonemas.

Pela primeira vez na vida, nota em si própria sintomas de mulher-galinha:

«E se o Pedro está a tentar telefonar para cá e está sempre interrompido?»

Encurta as conversas, reduzindo-as à abstracção:

- Como é que estás?

- Bem. E tu? - Péssima. – responde a amiga.

- “Isso passa”, diz Eva. E desliga.

As conversas com o Pedro são cada vez mais compridas.

Às vezes ele tenta materializá-las:

- Como é que estás vestida? Mas Eva não gosta.

Responde: «Como sempre.»

- E isso consiste, ao certo, em quê? - Pergunta à minha mãe. É ela que me veste.

Queres que ta passe? Pedro desiste. Volta ao que espera dele:

- Pensei muito em ti.

- Eu também. - Não consigo concentrar-me.

- Eu também não. Consegues conversar com outras pessoas durante muito tempo?

- Não. - Diz Pedro.

- Eu também não. - Só contigo. - É bom, não é? - Pergunta Eva.

- Bom de mais. - Estás farto, é? - Não, não é isso. - Para mim é cada vez melhor. – Afirma Eva.

- Para mim também. - Então como é que pode ser bom de mais, se todos os dias é um bocadinho mais? - Acho que estou a apaixonar-me por ti. – Diz Pedro.

- Dizes sempre isso, responde Eva, já inquieta por ele ainda não o ter dito.

- Porque é verdade.

- Como é que sabes?

- Não sei – responde ele. - Devias ter dito «Sei» e pronto. - Então, pronto: sei.

- Não. O que disseste era que não sabias se estavas apaixonado por mim.

- Eva faz uma pausa e acrescenta, professoral:

- É bastante diferente. - Olha, a verdade é que estou sempre a pensar em ti.

- Eu também - responde Eva.

- A sério? - A sério.

- E não saem disto. Eva não sabe o que é que ele faz da vida, que idade tem, onde mora, nada. Atinge o máximo de informação com perguntas do tipo: «Qual é a cor de que gostas mais?»
Azul. Como sempre.
Para Eva, são momentos perdidos. Pedro nunca diz que um dia gostaria de se encontrar com ela. Isso já ela sabe. E, por conseguinte, não admite. Eva sabe que ele já sabe muitas coisas acerca dela – que é bonita, que tem manias, que não tem namorado. Mas ela não quer saber nada acerca dele.

Nem «por enquanto» nem nunca. É a pequena vingança dela sobre ele. Os homens são dados à expectativa, as mulheres à imaginação.

- Quando falo contigo não me sinto sozinha. – Em termos de declaração de amor, Eva não vai além disto.

- E depois de desligares? - Isso é cá comigo. - Eu sinto. - Sentes o quê? - Sozinho. - Não te sintas. - Diz Eva, com carinho.

- Sinto-me. O que é que queres que eu te faça? - Eu estou contigo. – Responde Eva, no seu tom de Jesus Cristo. E desliga.

E sorri. Abre o livro e, mandando às urtigas o contexto, sublinha uns versos:

«E aquele poder tão duro Dos afeitos com que venho, Que encendem alma e engenho; Que já me entraram o mundo Do livre alvídrio que tenho.»

Depois estica o braço e certifica-se que ainda estão os dois pacotes de bolachas. Estão. Mas tem sono. Estranho, porque ainda não tomou os comprimidos.

Sente um cansaço bom, como se estivesse passado o dia no mar. Deita a cabeça, desconfiada, para ver o que acontece. Fecha os olhos, pensa em África durante uns minutos e, sem dar por isso, adormece.


Miguel Esteves Cardoso

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