terça-feira, 10 de março de 2009

Algumas Receitas


A Broa segundo a minha bisavó:
Dois quilos de farinha milha para um quarto de quilo de farinha centeia.
Tempera-se de sal dois litros de água. Desfaz-se o crescente muito bem desfeito na farinha antes de principiar a amassar. Depois, vai-se deitando água e amassando, metendo toda a farinha milha. Amassa-se muito bem. Por fim junta-se a farinha centeia, não devendo depois disso levar mais água. Continua-se a amassar. Sabe-se que está amassada quando as mãos ficam limpas. Deixa-se levedar. Sabe-se que está pronta quando crescer. Deita-se farinha numa masseira e lança-se dentro a massa lêveda. Dá-se-lhe forma e coloca-se na pá de madeira que a leva ao forno, sobre folha de castanheiro, que lhe dava sabor e evitava que se "pegasse" ao fundo do forno (ou, à sua míngua, uma couve).
Todo este processo era acompanhado de alguns rituais, de fundo magico-religioso, com especial destaque para o fazer cruzes na massa sempre que se virava para amassar, e a oração "São Vicente te acrescente, S. Mamede te levede, e S. João te faça pão".
Cheio o forno, antes de se barrar a porta (às vezes com matéria prima menos escorreita que o barro), uma nova oração: “Deus te acrescente dentro do forno, fora do forno e pelo mundo todo”.
5 a 6 horas depois está consumado o milagre – a broa.
Entenda-se esta citação final como uma merecida homenagem às mulheres da Maia, de uma têmpera, de uma inteligência, de uma nobreza e de uma sensibilidade difíceis, se não mesmo impossíveis de igualar.
Natal e Gastronomia na Maia
Não há um «Natal» mas sim vários «Natais» na tradição maiata. O Natal de uma casa rica, de um grande lavrador por exemplo, não era o mesmo Natal de uma casa de um pequeno agricultor, de um trabalhador agrícola ou de um operário, como quase podemos dizer que hoje acontece.
As diferenças de poder aquisitivo, e, por consequência, de práticas e de costumes, eram enormes.
Convém desde logo estabelecer, à partida, que nem Pai Natal, nem Árvore de Natal nem Presépio são tradições arreigadas desde tempos imemoriais, bem pelo contrário. Aparecem, este último, por influência erudita, nos fins do séc. XIX, e a árvore e o simpático velhinho apenas em pleno século XX.
O Natal era ainda não há muito (até à década de sessenta), aquilo que as posses de cada um permitiam. Ceia do Natal, mais pobre ou mais rica, é que tinha de haver.
O Bacalhau com batatas e pencas, bem regado com bom azeite ou com molho fervido, o Polvo, o Galo caseiro, o Capão, que o Peru é invenção estrangeira e tardia, estavam na consoada de quem os podia comprar ou de quem os criava.
O mesmo se pode dizer das doçarias, muitas delas de origem conventual, e cujos componentes, pelo seu preço, eram frequentemente impeditivos da sua degustação por todos – os pescoços de freira, o pão-de-ló, o bolo podre, os biscoitos secos, as broinhas de erva-doce, os formigos, o arroz doce, a aletria, os melindres, as migas doces, as rabanadas, mais dispendiosos os primeiros, mais acessíveis os últimos, ornamentavam a mesa de alguns.
Finda esta Ceia, rumava-se à Missa do Galo, celebrada à meia-noite. Esta era uma celebração de festa e de alegria partilhada por todos, nomeadamente quando chegava o momento de «beijar o menino». Depois da Missa, e chegados a casa, aguardavam-nos os restos (e que restos) da ceia, a que se juntava o «vinho quente» e, para os mais novitos, o chocolate.
No dia seguinte logo pela manhã, era a Missa do Natal, finda a qual havia, frequentemente, um leilão de «segredos» ou «consoadas». Este foi muitas vezes crescendo em dimensão, e chegou a ser transferido para a tarde do próprio dia, quase se autonomizando.
E, claro, ninguém pensava noutra coisa senão em brincar com as novas prendas. Ao almoço, o bacalhau desfiado antecedia o prato de carne. Ao jantar, o delicioso farrapo velho, ou roupa velha, que, embora se fizesse várias vezes ao ano, sabia sempre melhor naquele dia.
Em todo este período do Natal aos Reis era frequente escutarem-se grupos de cantadores de «Janeiras», frequentemente constituídos apenas por vozes, por vezes acompanhadas por um ou outro instrumento mais simples (bombo ou ferrinhos) ou, eventualmente, um instrumento de cordas. A estes grupos se dava muitas vezes uma contribuição em dinheiro e de comer e de beber.
Tradição típica da Terra da Maia era a dos Reiseiros, que ficaram justamente conhecidos, no Entre Douro e Minho como na margem sul do Douro, como os Reiseiros da Maia. As «Reisadas» eram verdadeiros «autos», inspirados na vida, paixão e morte de Cristo, materializados em manuscritos a que se dá o nome de «cascos», onde estavam contidas as falas de cada um das personagens, bem como outros apontamentos de índole. Estes «autos» eram representados em locais muitas vezes improvisados, sendo que às vezes se juntavam dois carros de bois, traseira contra traseira, e aí se procedia à representação
Os trajos, quase sempre de confecção própria, tinham, como toda a representação, uma forte carga de ingenuidade, de naïf, característico destes tempos.
Eis alguns dos costumes que, na Maia, se associavam ao Natal.


José Augusto Maia Marques

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