Estava agora mesmo a fazer um zapping televisivo sem me deter em nenhum dos quase 100 canais que temos à disposição e aproveitando o dolce fare niente do fim de tarde, quando comecei a aperceber-me de que há algo em comum entre canais tão diferentes como os espanhóis , alemães, americanos, ingleses, etc. À partida não deveria haver nada em comum pois cada país tem as sua diversidades cultural e a sua maneira própria de fazer televisão mas há realmente uma coisa em que são iguais: todas usam pessoas sorridentes, bonitas e bem-humoradas que exibem os seus atributos físicos, quanto mais melhor. As mulheres, invariavelmente, exibem os seus corpos perfeitos e sensuais enquanto os homens são chamados a exibirem poder e dinheiro ao mesmo tempo que esbanjam charme e um sorriso capaz de derreter o maior iceberg do mundo.
Homens e mulheres deixam de lado as suas qualidades enquanto seres humanos para mostrarem como se cultiva o corpo, enquanto divulgam fórmulas de sucesso deste ou daquele produto. Convidam à admiração, suscitam inveja, capitalizam para si o que lhes interessa, alimentam especulações em torno da sua vida privada que supostamente devia ser isso mesmo...privada. E assim fazem a sua própria fortuna e a de uma verdadeira indústria de produtos e imagens de celebridades. Parecem felizes ao exibir uma satisfação aparentemente sem fim. Será possível que estes homens e mulheres não tenham sofrimentos e contrariedades também??!!
A exuberância excessiva, a sensualidade exibicionista e a insistência de sorrisos, que parecem nunca se desfazer, a insistência da perfeição corpórea tentam passar a imagem de biografias que não registam derrotas, dúvidas nem decepções. E lutam desesperadamente contra a passagem do tempo, como se cada ruga não fosse um sinal do que vivemos e sim uma evidência de algo vergonhoso. Parece que se busca uma felicidade plastificada, impermeável às intempéries da vida e, ao mesmo tempo, o reconhecimento e admiração do outro não pela qualidade do ser, do carácter, do que somos, mas do que parecemos ser. Ou seja, todos querem ser reconhecidos pelo que a sua imagem passa para as pessoas que nos rodeiam e não pelo que realmente são.
Tratamentos cosméticos, cirurgias radicais, é ampla a gama de recursos utilizados para tentar ficar bem com o próprio corpo. Adereços, roupas, maquilhagens, tatuagens, piercings, musculação, cirurgias plásticas...tudo procura dar conta de um mal-estar que, mesmo que referido ao corpo, geralmente pouco tem a ver com ele. São apenas tentativas, muitas vezes vãs, de aplacar inquietações, angústias, e experiências mais profundas de vazio de alma que apenas no corpo encontram uma forma de emitir sinais incompreensíveis de pedidos de socorro.
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