sexta-feira, 6 de março de 2009

Pessoas cinzentas


Quando era miúda achava os adultos pessoas difíceis. "Tu já és crescida e tens que saber o que fazes" dizia a minha mãe quando queria convencer-me de algo. Mas eu não queria ser adulta! Recusava-me sequer a pensar que também eu viria a ser uma adulta. E, na minha cabeça, a palavra "adulta" soava quase cuspida, em ar de desprezo.

Para mim, adultos eram pessoas cinzentas que trabalhavam e pagavam as suas contas. Podiam ser exemplares ou não, mas eram sempre vazias. Vazias de alegria, vazias de vontade de mudar. Pessoas apenas resignadas com o seu destino, comprado e manipulado por outras pessoas. Vidas sedentárias, sem tempo para apreciar as pequenas coisas que dão sabor à vida.

E hoje, hoje tenho medo de eu mesma me ter tornado numa dessas pessoas. Já não tenho a certeza, como tinha na altura, de que eu seria diferente. EU nunca me esqueceria de mim própria e das coisas que gosto. Nunca esqueceria como era bom ser jovem, despreocupada, livre e verdadeira. Nunca me esqueceria de sorrir, mesmo que os outros não entendessem o porquê do meu sorriso. Eu seria sempre colorida, cheia de vida e de alegria.

Mas agora já não tenho a certeza de ter conseguido manter esse espírito. Há dias em que me parece que sim, que talvez...Mas outras, olho para dentro de mim e cá está ela, aquela pessoa cinzenta em que eu tinha jurado a mim mesma nunca me transformar. Essa pessoa cinzenta toma conta de mim, põe-me a pensar nas dificuldades da vida e em como tempo passa rápido. Deixa-me descontente com a vida, que não me permite ser despreocupada como gostaria. Põe-me a matutar na rotina diária, certinha e sempre igual, e mostra-me uma pessoa sensaborona que não quero que habite em mim.

Por vezes consigo mandá-la embora e lembro-me perfeitamente que prometi ser jovem para sempre, mesmo quando os cabelos brancos teimassem em aparecer. Outras vezes...não e, nesses dias, esqueço-me de sorrir.



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