
Poderá um dia um dispositivo biológico portátil analisar se duas pessoas são compatíveis? Um psicólogo português acredita que sim
A saber viver desafiou um psicólogo a imaginar como será o amor daqui por 100 anos. Vítor Rodrigues aceitou o convite e escreveu uma história, a que deu o título de «A tecnologia dos afectos», onde relata o encontro de Ana e Pedro, duas personagens que se movem num universo onde as relações amorosas são determinadas pelas análises das máquinas. Utopia? Possibilidade real num futuro longínquo? Leia o relato idealizado pelo especialista e tire as suas próprias conclusões.
«Ana adorou o aspecto e a movimentação de Pedro, que imaginou logo compatível e harmonizável consigo. De resto, tinha-se dirigido àquele parque no pressentimento de uma alma amiga. Quando os olhares se cruzaram, a química dos corpos foi accionada juntamente com a consciência das energias.
Aproximaram-se e o primeiro contacto soube bem. Falaram e as primeiras palavras trocadas soaram com intensidade nas almas. Dias depois, algumas rotinas simples confirmaram a fertilidade holística do namoro: o analisador biológico portátil confirmou que os organismos eram genética e hormonalmente sintonizáveis e estavam de boa saúde.
O técnico de análise existencial considerou, após alguns testes e após ler os registos escolares, que havia ressonância intelectual a 83 por cento e afectiva a 76 por cento. Bons índices.
A perspectiva astrológica e a equação das almas também falavam de modo favorável. Então fizeram em conjunto algumas meditações e apreciaram um bom espectáculo multi-sensorial 3D, enquanto os analisadores cerebrais lhes indicavam, com tonalidades musicais, as respostas neuronais um do outro.
Confirmaram que podiam apreciar a vida em conjunto e, na fala livre e flexível, sentiram vibrações interiores de acordo. Ao fazerem amor, foi fácil obter uma boa ressonância nos vários centros energéticos. Abria-se, para eles, um horizonte de caminho conjunto.
Começavam a aprendizagem da harmonia de casal em profundo respeito pelos gestos interiores e exteriores um do outro.
Quando escolheram unir-se, perante amigos e familiares, num compromisso de carinho e assistência a longo prazo, o primeiro futuro filho já os espreitava, do lado de lá da realidade, regozijando-se ao sentir a possibilidade de, um dia, crescer com eles.
Estavam a pensar no seu percurso quando, naquela tarde primaveril, resolveram apreciar um relato histórico, em cinco canais sensoriais, acerca das relações de casal no início do sec XXI. A barbárie e os desastres das escolhas aleatórias animalizadas fizeram-nos rir e quase chorar um pouco.
Depois, pensando no seu relacionamento, comoveram-se ao apreciar a facilidade com que, nestes tempos pós-catástrofe, era possível eliminar factores de incompatibilidade e perda de tempo para ir em busca dos horizontes mais profundos.
Nos tempos da barbárie civilizada era-se mais impulsivo e simiesco e menos capaz de espontaneidade criativa. Havia muito medo e muita expectativa e, por isso, menos técnica e menos intuição...»
Texto: Vítor Rodrigues (psicólogo)
Revista Saber Viver
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